Escrito por Kiki às 12:05
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*** No céu tem prozac ***
Sob a ira de Zeus,
o monge balbucia,
entoam-se os mantras sagrados,
aperta-se o cilício,
o globo se equilibra,
em peripécia
e gira.
Adiam-se-lhe os minutos,
ao gesto do amor,
sacrifícios e devoções:
êxtase de Margarida,
êxtase de Madre Teresa,
êxtase do Cura D’Ars,
êxtase da irmã Dulce;
gira e gira,
sustida em piedade, Colunas de Hércules,
Atlas da Fé — a destruição merecida —,
gira e gira — adiada —
a serviço do mal,
sob o império do mal,
o mundo gira e gira...
Os santos vigiam e guardam, só eles:
vigiai e orai!
— Mãe, no céu tem pão?
Pois nem só de pão vive o homem:
há que ter pão, do céu,
ao espírito;
há que ter pão, em cima da mesa,
aos escolhidos;
há que ter pão, debaixo da mesa,
aos enjeitados;
sempre existirão pobres convosco,
migalhas a Lázaro;
ao banquete, as libações:
— Saúde, muita saúde, Coronel!
Tem, filhinho, muito pão,
pão-doce, pão-seco, muito pão,
aquele,
bem gostoso
durma, filhinho,
amanhã, deixo você brincar...
Durma, meu amor...
Auriverde pendão de minha terra,
que a brisa do Brasil beija e balança...
Famintas do meu Brasil
precisam sonhar com um pão,
as crianças, às portas do Céu,
para entrar no Céu;
verás, infante,
não há país como este;
em se plantando, ó Caminha,
sim, plantaram,
plantaram nas algibeiras,
onanistas do metal;
plantaram fora, nas Flóridas,
plantaram no sigilo, Gstaad,
plantaram a mandioca,
sob a Floresta, sobre o calcário, no pampa imenso,
vinte centímetros, dizem,
cobriria a Cisplatina,
aterraria o Prata...
Em se plantando, seu Caminha,
o que dá, não dá; o que deu, não deu,
nunca deu...!
o que deu, o gato comeu;
o que sobrou, o rato roeu.
— Tem mesmo, mãe, tem...
verdade,
lá,
no céu,
tem pão?
(Em tom de ninar, em voz só de mãe):
Desce gatinho,
de cima do telhado,
para ver o Francisquim
dormir bem sossegado...
Desce, gatinho,
de cima do telhado,
para ver o Francisquim
dormir bem sosssegado...
Adormeceu ... :
Dormiu. Causa mortis:
inanição,morte.
E dormimos,
todos,
o sono dos justos:
In,
in memoriam;
in,
infamiam;
in,
injustitiam:
Prozac!
(Soares Feitosa, Francisco José, Ipu, CE, *19.01.44)
(Para Francisco, quatro anos, Brasil, Seca do 93; ele partiu depois de perguntar à mãe se no Céu tem pão.)
Escrito por Kiki às 16:53
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*** O Beija Flor ***
Era uma moça franzina,
Bela visão matutina
Daquelas que é raro ver,
Corpo esbelto, colo erguido,
Molhando o branco vestido
No orvalho do amanhecer.
Vede-a lá: tímida, esquiva...
Que boca! é a flor mais viva,
Que agora está no jardim;
Mordendo a polpa dos lábios
Como quem suga o ressábio
Dos beijos de um querubim!
Nem viu que as auras gemeram,
E os ramos estremeceram
Quando um pouco ali se ergueu...
Nos alvos dentes, viçosa,
Parte o talo de uma rosa,
Que docemente colheu.
E a fresca rosa orvalhada,
Que contrasta descorada,
Do seu rosto a nívea tez,
Beijando as mãozinhas suas,
Parece que diz: nós duas!...
E a brisa emenda: nós três! ...
Vai nesse andar descuidoso,
Quando um beija-flor teimoso
Brincar entre os galhos vem,
Sente o aroma da donzela,
Peneira na face dela,
E quer-lhe os lábios também
Treme a virgem de surpresa,
Leva do braço em defesa,
Vai com o braço a flor da mão;
Nas asas d’ave mimosa
Quebra-se a flor melindrosa,
Que rola esparsa no chão.
Não sei o que a virgem fala,
Que abre o peito e mais trescala
Do trescalar de uma flor:
Voa em cima o passarinho...
Vai já tocando o biquinho
Nos beiços de rubra cor.
A moça, que se envergonha
De correr, meio risonha
Procura se desviar;
Neste empenho os seios ambos
Deixa ver; inconhos jambos
De algum celeste pomar! ...
Forte luta, luta incrível
Por um beijo! É impossível
Dizer tudo o que se deu.
Tanta coisa, que se esquece
Na vida! Mas me parece
Que o passarinho venceu! ...
Conheço a moça franzina
Que a fronte cândida inclina
Ao sopro de casto amor:
Seu rosto fica mais lindo,
Quando ela conta sorrindo
A história do beija-flor.
(Tobias Barreto)
(7-6-1839 * 26-6-1889)

Escrito por Kiki às 17:45
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